Editorial
Sua casa pode estar de costas para a melhor luz que ela tem.
Antes de pensar em reforma, talvez seja preciso observar como você está ocupando a luz natural que já existe no seu espaço.
Eu ouço com frequência uma frase muito parecida:
“Minha casa é escura e eu fico para baixo dentro dela.”
E quase sempre vem acompanhada de outra:
“Acho que só uma reforma resolveria.”
É justamente nesse ponto que eu gosto de interromper um pouco esse raciocínio.
Porque nem sempre o problema está na quantidade de luz que entra na casa. Às vezes, o problema está em como organizamos nossa rotina em relação a essa luz.
Podemos ter uma boa janela, uma orientação solar interessante e algumas horas de iluminação natural muito agradáveis ao longo do dia e, ainda assim, passar grande parte do tempo de costas para tudo isso.
Quando a janela deixa de participar do projeto
Existe uma lógica bastante comum na organização das nossas casas.
Decidimos onde colocar o sofá pensando na televisão.
Escolhemos a posição da mesa de acordo com a tomada.
A escrivaninha vai para a parede que parece mais adequada para receber o móvel.
O armário é definido pelo espaço disponível.
E, no final dessas decisões, existe um elemento extremamente importante que muitas vezes não foi considerado: a janela.
Ou, mais precisamente, a relação entre janela, luz natural, atividade e permanência.
Isso significa que podemos passar horas trabalhando, lendo, tomando café ou simplesmente permanecendo em um cômodo enquanto a melhor iluminação daquele ambiente acontece atrás de nós.
A casa recebe a luz. Nós é que nem sempre a recebemos.
A luz natural não serve apenas para iluminar
Quando falamos de iluminação em interiores, é fácil pensar apenas em uma questão funcional:
“Está claro o suficiente para enxergar?”
Mas a relação entre seres humanos e luz é muito mais complexa.
A luz natural participa da regulação do nosso ritmo circadiano, ajudando o organismo a reconhecer a alternância entre dia e noite e influenciando processos relacionados ao estado de alerta, ao sono e à organização temporal do corpo.
Além disso, existe uma dimensão perceptiva.
Ambientes iluminados naturalmente mudam ao longo das horas.
A luz se desloca.
As sombras mudam.
Os materiais ganham novas tonalidades.
As texturas aparecem de outras maneiras.
Existe uma espécie de movimento silencioso acontecendo dentro daquele ambiente.
E isso faz parte da experiência de habitar.
Por isso, quando observo um espaço pela perspectiva do Design de Interiores aliado à Neuroarquitetura, não penso apenas na disposição estética dos móveis.
Eu observo também:
onde aquela pessoa permanece por mais tempo;
o que ela faz em cada horário;
para onde o corpo e o olhar estão orientados;
como a luz atravessa o ambiente durante o dia;
quais lugares recebem iluminação direta, indireta ou difusa;
e se o mobiliário está favorecendo ou bloqueando essa relação.
Às vezes, uma mudança de 90 graus transforma a experiência do ambiente
Imagine um home office.
Existe uma janela lateral com boa entrada de luz natural, mas a mesa foi colocada encostada em uma parede, porque ali havia uma tomada e porque, naquele momento, parecia ser a disposição mais óbvia.
A pessoa trabalha durante horas olhando para a parede.
A janela permanece atrás dela.
Provavelmente será necessário acender a iluminação artificial mesmo durante parte do dia.
Agora imagine essa mesma mesa girada 90 graus:
Nenhuma parede foi quebrada.
Nenhum móvel novo foi comprado.
Nenhuma marcenaria foi feita.
Porém a relação daquela pessoa com o ambiente mudou.
Ela passou a perceber a luz.
A janela entrou no campo visual.
O espaço ganhou profundidade.
A iluminação artificial talvez possa permanecer desligada durante mais tempo.
É uma pequena alteração espacial com potencial para produzir uma experiência completamente diferente.
Isso revela uma questão que considero importante no design:
Nem todo problema de uma casa precisa ser resolvido acrescentando alguma coisa.
Às vezes, o projeto começa justamente quando paramos de perguntar:
“O que falta comprar?”
E começamos a perguntar:
“O que este espaço já está me oferecendo e eu ainda não estou aproveitando?”
Faça o teste da luz na sua casa
Antes de comprar luminárias, trocar móveis ou começar uma reforma, existe um exercício simples que pode revelar muito sobre o seu ambiente.
Escolha um cômodo em que você passa bastante tempo.
Fotografe exatamente o mesmo enquadramento em três horários:
9h
Observe onde a luz da manhã aparece.
Quais superfícies recebem mais luminosidade?
Existe algum ponto particularmente agradável?
13h
Observe novamente.
A luz ficou mais intensa?
Mudou de direção?
Alguma área que estava escura pela manhã agora se tornou interessante?
17h
Repita o processo.
Como é a luz do final da tarde naquele ambiente?
Depois, compare as três fotografias.
Você começará a perceber algo que muitas vezes passa despercebido na rotina: sua casa possui uma geografia própria da luz.
Existem lugares mais generosos em determinados horários.
Existem paredes que refletem melhor a luminosidade.
Existem cantos que poderiam abrigar atividades diferentes.
Talvez a poltrona de leitura esteja no lugar menos interessante da sala.
Talvez sua mesa de trabalho esteja exatamente de costas para a melhor janela.
Talvez aquele canto que hoje abriga apenas um móvel decorativo pudesse ser o lugar onde você tomaria café todas as manhãs.
Projetar também significa observar antes de interferir
Existe uma tendência natural de associar Design de Interiores a transformação física:
Novos móveis.
Novos revestimentos.
Nova iluminação.
Marcenaria.
Objetos.
Evidentemente, tudo isso pode fazer parte de um bom projeto, mas existe uma etapa anterior que considero fundamental: a leitura do ambiente.
Antes de modificar um espaço, precisamos compreender o que já acontece nele:
Como o sol percorre aquela casa?
Onde existe silêncio?
Onde existe ruído?
Onde as pessoas naturalmente se sentam?
Que lugar é evitado?
Que ambiente parece cansativo?
Que canto da casa inexplicavelmente nos faz querer ficar?
Quando começamos a observar essas respostas, percebemos que um projeto não deveria nascer apenas da planta baixa.
Ele precisa nascer também da relação entre o espaço e quem vive nele.
Talvez sua casa não precise de uma reforma, talvez precise ser reorganizada.
Existem situações em que uma reforma é necessária, claro.
Problemas de iluminação natural podem estar relacionados à arquitetura do imóvel, à dimensão das aberturas, à orientação solar, a barreiras externas ou à própria configuração da planta, mas antes de concluir que é preciso transformar fisicamente a casa, vale investigar outra possibilidade:
Será que estamos simplesmente utilizando mal os melhores lugares que ela já possui?
Porque, muitas vezes, a coisa mais valiosa daquele ambiente:
não está na marcenaria,
não está no revestimento,
não está no móvel de design,
não está na luminária.
Está entrando gratuitamente pela janela todos os dias.
A luz natural.
E talvez você esteja de costas para ela.
Um exercício para hoje
Antes de mudar qualquer coisa na sua casa, faça apenas uma pergunta:
Onde minha casa é mais generosa comigo ao longo do dia?
Observe a luz.
Observe onde você permanece.
Observe para onde seu corpo está orientado.
Às vezes, o primeiro passo para transformar um ambiente não é reformá-lo.
É simplesmente percebê-lo melhor.
Quer entender onde sua casa pode estar te cansando e quais pequenas mudanças podem melhorar sua relação com o ambiente?
Entre em contato comigo:
Myrella Masseli
Designer de Interiores | Design de Produto | Neuroarquitetura
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Fontes e referências
1. Brown, T. M. et al. (2022) — Recommendations for daytime, evening, and nighttime indoor light exposure to best support physiology, sleep, and wakefulness in healthy adults. PLOS Biology.
2. Ardabili, N. G.; Wang, J.; Wang, N. (2023) — A systematic literature review: building window’s influence on indoor circadian health. Renewable and Sustainable Energy Reviews.
3. Münch, M. et al. (2020) — The Role of Daylight for Humans: Gaps in Current Knowledge. Clocks & Sleep.
4. Boubekri, M. et al. (2014) — Impact of Windows and Daylight Exposure on Overall Health and Sleep Quality of Office Workers. Journal of Clinical Sleep Medicine.
5. National Institute of General Medical Sciences — NIH — Circadian Rhythms.